Fragmentos de um Vencido

Fragmentos de um VencidoJustiça e Poesia – Prefácio à edição portuguesa
(escrito por José Terra)

Ouvimos frequentemente a propalação do fim do socialismo, da sua falência e sua incompatibilidade com os nossos dias. Independente de questionarmos se o capitalismo deu certo,
ou para quem, é indiscutível que o socialismo estabeleceu um equilíbrio entre as forças que se antagonizaram nas suas propostas para o papel do homem no processo de produção e na economia, como também constituiu uma poderosa ferramenta na busca do homem por um mundo mais justo. Todas as lutas pela liberdade e justiça têm como aliada a utopia, se considerarmos que a abolição da escravatura no Brasil também já foi uma utopia.

A essas vozes uniu-se a voz da poesia. As aspirações humanas sempre tiveram eco no poema. Assim foi com Paul Éluard, Garcia Lorca, Castro Alves entre outros. “Come ananás, mastiga perdiz, que teu dia esta prestes, burguês” disse Maiakovsk.

Todos aqueles, porém, que puseram a sua arte à disposição do bem comum, a serviço da indignação com a covardia e industrialização da miséria dos menos favorecidos, tiveram que
lutar contra o desequilíbrio dentro do próprio poema: a função referencial e a poética. Mais do que a luta que se trava com as palavras e suas mutações, contra as perdas impostas ao desvario e ao fascínio nas suas materializações em palavras, está o esforço pelo equilíbrio entre a estética e a mensagem. A poesia que tenta ser denuncia, protesto, consciência, precisa não deixar de ser poesia.

Em Fragmentos de um Vencido, como já nos aponta o título, Thiago Luz se lança nessa empreitada. Em seu segundo livro, sua poesia se apresenta como um grito forjado na observação da condição opressiva em que vivemos. “Lotações negreiros navegam pelas avenidas, / Enquanto o cafezal da Avenida Atlântica / Está sob as vistas do barão na varanda.”, e constantemente nos leva a refletir que pouca coisa mudou e que os dias de hoje não passam de um cenário novo para um mesmo e antigo drama: “Transformaram / Sinhás em socialites, / Mucamas em domésticas, /Casas-grandes em coberturas.”.

Thiago Luz, que “bebe na fonte dos desajustados, dos que estão sem rótulos, dos que escaparam dos rebanhos”, nos chama a resistir: “Precisamos resistir… / Como uma criança diante do mundo, / Que chora uma verdade inocente / A cada maldade dos adultos.”. Ironicamente nos apresenta o desestimulante quadro em que nos encontramos: “A esperança é uma estrela pop: / Óculos escuros, seguranças, carro blindado. / Quero um beijo, um abraço, um sorriso, / Mas ela não sabe que eu existo.”.

Fica agora ao seu encargo estar mais perto da realidade que nos apresenta esta brilhante fase da sua poesia. Veja com seus próprios olhos, “Bem-vindo aos restos do paraíso!”.

*José Terra, poeta – http://www.joseterra.com.br

Fragmento I

Bem-vindos aos restos do Paraíso,
À cidade-dos-pés-juntos,
Descalços, sem adereços, cadarços,
Solados e chinelos.

Bem-vindos à favila das fogueiras burguesas;
À favela das ruelas e vielas,
Dos meninos e esgotos;
Aos cadafalsos e à verdade do roto.

Bem-vindos à carquilha do tempo…
Treze do cinco (tão cínico): um mito!
E as faces: todas tão tristes.

Bem-vindos ao navio negreiro,
Onde a dor beija os olhos do negro
Em senzalas sob marquises.

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