O Velho

Oitenta anos, oitenta dias, não é o tempo que passa, somos nós que passamos por ele e não saímos ilesos. Cheguei a esta conclusão numa tarde de outono, enquanto as folhas caíam pálidas nas calçadas, desgraçadas pelo tempo que finda, e meu avô, sentado numa cadeira de balanço na varanda de uma casa alugada no subúrbio, fitava o portão com seus olhos claros, levemente esverdeados como uma esperança desbotada.

Ele estava com um velho livro amarelado do John Fante pousado sobre a coxa direita, e suas unhas eram grandes e grosseiras, tão amareladas quanto o livro maltrapilho. Não aceitava que as cortassem. Tudo bem, o Velho, como carinhosamente o chamava, tinha lá suas manias. Eu respeitava.

Seu rosto era o resto do próprio passado, marcado pelo tempo, com suas valas secas, cicatrizes dos sorrisos de outrora, e por onde certamente também devem ter corrido rios de tristezas. Oitenta anos… Não há salvação: ou morremos de uma vez, ou morremos aos poucos. E ele deve ter morrido tantas vezes nessa vida, que agora restava muito pouco para ser enterrado. Será que isto é o que chamam de velhice? Viver e viver e viver até viver cada vez menos? Até deixar de existir? Não deve doer, e no fim das contas, a vida é o intervalo da morte: morrer é voltar no tempo.

Ele me sorriu. Como tá o menino? – Perguntou. Por mais que o seu cérebro já não tivesse o mesmo brilho de antes, sempre iluminado por Fante, Hemingway, Kerouac e outros, ele nunca se esquecia de duas coisas: meu filho e o Flamengo. Está bem, Velho, respondi, dando um beijo em sua testa. Você viu o jogo ontem? – O jogo tinha acontecido há três dias. Vi sim, vô, respondi. Aquele goleirinho… Ele sempre implicava com os goleiros. Mas havia uma explicação: na juventude, fora atacante, goleador, e até chegara a fazer algum sucesso pelo interior de Minas Gerais. Agora estava ali, impedido de qualquer drible pelo seu marcador mais implacável, o tempo.

Dio cane, Dio cane, Deus é um cachorro, vivia repetindo a frase de Fante. Alternava momentos de rebeldia com outros de extrema passividade diante da própria existência. Como tá o menino? – Perguntou mais uma vez. Está bem, vô, respondi docilmente. Eu não o compreendia muito bem, não mais. Horas e horas sentado na varanda, olhando pro nada, hipnotizado pelo portão. Decerto enxergava alguma coisa, talvez algo só desvendado pela idade, algo que não me seria revelado tão facilmente.

O que está olhando? – Inquiri. Dio cane, respondeu, mudando logo de assunto. Viu o jogo? Aquele goleirinho… O senhor está lendo esse livro? Já o leu quantas vezes? Não leio mais, não enxergo as letras direito, só fico imaginando o que está escrito… Dio cane. Sorri e saí da varanda, a varanda de uma casa alugada no subúrbio, paga com muito custo através de uma aposentadoria de merda de um velho de oitenta anos. Talvez meu avô tivesse razão em sua revolta: Dio cane!

Falei com minha mãe e minha avó. Elas reclamaram novamente das goteiras e do telhado vagabundo que nunca cumpria a sua tarefa, das paredes desbotadas como o batom gasto nos lábios de uma puta no fim da noite, da umidade que ardia nos ossos dos velhos, do preço do aluguel que estuprava os bolsos e a dignidade daquela gente, da rua esburacada e dos passos errantes pelas calçadas irregulares, enfim, da vida. Aquilo sugava minha energia, me deixava pra baixo. Em dez minutos voltaria pra casa, tomaria uma vodca, ouviria um rock no volume máximo e me esqueceria das reclamações, do telhado, da casa alugada… Fante tinha razão, meu avô tinha razão: Dio cane!

Voltei à varanda, a varanda de uma casa alugada, de uma vida surrada, de uma existência miserável, de um outono eterno. Meu avô continuava inerte voltado para o portão. E o menino como tá? – Perguntou novamente. Tudo bem, Velho. Vou mandar consertar o telhado e pintar a casa, disse. Não se aperreie com isso… a morte apazigua tudo, garoto… esqueça o telhado, olhe pro céu. Falou comigo com a mesma sabedoria que falava quando eu tinha doze anos. Existiam momentos de lucidez.

Vou tentar alugar uma casa melhor para vocês, eu disse. Ele me sorriu sua triste fronte, como só ele sabia fazer, devolvendo-me um pouco da minha meninice. Aquele sorriso ainda tinha o gosto de antigamente, meio sépia, meio preto e branco, uma doce foto na minha lembrança. Apliquei-lhe um beijo na testa e saí. Volto amanhã, disse já no portão. Ele acenou.

Às onze da noite daquele mesmo dia, o telefone tocou, tocou como nunca havia tocado, como jamais tocaria novamente: uma sinfonia acinzentada. Sim, o som daquele maldito era cinza! Cinza e infame! Cinza e infame e nauseabundo! Desgraçado, telefone desgraçado!

****

Parei em frente ao portão. As folhas continuavam pálidas na calçada esburacada, navegando pra lá e pra cá ao sabor do vento como uma nau sem timoneiro. Minhas olheiras denunciavam minhas noites mal dormidas, enquanto a vodca se mantinha anônima em meu hálito de Coca-Cola. Olhei a casa: na varanda jazia o vazio que me veio numa azia fugaz, enquanto a cadeira de balanço inabitada me corroeu as entranhas como um verme feroz, personagem-operário-augustoniano-angelical das ruínas. O gosto das lágrimas em meus lábios me deixou ainda mais sedento de vodca. Então, fechei os olhos e tudo me pareceu mais leve. Quando estamos com os olhos fechados tudo é azul, livre e feliz como o voo de um pássaro. A ignorância é uma bênção: confundimos o azul do mar que nos afoga com o azul do céu que nos liberta, e sorrimos de felicidade feito cães de madame abanando o rabo.

Mas abri os olhos… A cadeira continuava vazia e meus pés concretados à existência. Olhei pro céu, o dia estava lindo, mas eu não tinha asas, ou talvez não tivesse bebido o suficiente para tê-las, sei lá. Só sei que não resisti e gritei, como só os bêbados e os loucos fazem: VIVER SEM ASAS É UMA GRANDE MISÉRIA! Eu havia aprendido alguma coisa com o Velho, e ele devia estar contente comigo agora, porque a liberdade é uma coisa muito egoísta para depender do resto do mundo. Uma vizinha apareceu na janela. Mostrei o dedo médio pra ela, que ficou boquiaberta, de espanto ou de vontade, sei lá. Resolvi ignorar.

VÔ! – Berrei. O QUE FOI? – Perguntou ele lá de dentro. SONHEI QUE O SENHOR TINHA MORRIDO. Ele caminhou até o portão. Sonhei que o senhor estava condenado àquela cadeira e que tinha morrido… Estava velho, muito velho. Ele, em sua sabedoria peculiar, me respondeu: sabe qual o problema da vodca? Você pode tomar um porre de vodca com manga. No dia seguinte não vai suportar nem o cheiro da manga, mas a vodca vai continuar descendo maravilhosamente bem. E daí? – fiz cara de idiota. Daí nada… Vamos entrar, vai começar o jogo do Flamengo… E o menino como tá? – Ele sorriu, abrindo o portão. Devolvi a gentileza, afinal era um bêbado simpático, e entramos… Mais um dia na vida. Até quando? Não sei, o futuro é uma ilusão.

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