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O Bule

O que é belo é breve.
Um sorriso guardado
Em um retrato empoeirado na estante,
Um adeus sufocado
Pela fumaça do trem que já parte.
Um poema
Que tenta do infinito apenas um instante.

E a memória, fugaz,
Desaprende o rosto,
Os gestos,
Até o gosto
Do café da minha infância…
É um vulto atrás do fogão?
Um vulto sem nome…
Um vulto sem nome que me ama…
Um vulto sem nome que me ama e não me olha…

Mas vejo um bule…
Além do vulto, um bule!
Em metal frio refletindo o meu rosto de guri,
Ali, estatelado na cozinha do passado,
Enquanto o vulto vai,
Sempre vai o vulto…
Sem olhar pra trás.
Qual o seu nome?
Um vulto sem nome que me ama e não me olha.
Sempre vai o vulto,
E sempre me vem o maldito,
O maldito do bule que não é breve,
Porque só o que é belo é breve,
É vulto,
O resto é metal frio,
É o que me fica de herança,
É entulho nos armários da lembrança.

E o que me resta além do bule?
O que me resta?
Talvez o poeta,
Este ente,
Apaixonado e transitório,
Temporal e saudosista,
Poente,
Que escreve…
O que é belo é breve
E o poema
Do infinito é apenas um instante.

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Limão com tamarindo

Eu enfio a língua na entrelinha,
essa lasciva abertura entre dois versos
fenda íntima de um poema!

E aqui, aviso logo,
não há chocolate na cobertura,
também não é doce,
nem autoajuda.
É literatura, camarada,
literatura!

Eu enfio a língua na entrelinha,
essa lasciva abertura entre dois versos,
fenda íntima ao infinito!

E aqui, aviso logo,
é azedo o gosto,
meio amargo
porque
literatura, meu amigo,
é limão com tamarindo!

O gigante do rio

A velhice é comparsa da infância. Cheguei a essa conclusão já adulto, ao me lembrar de tia Vivi na cadeira de balanço na varanda. Ela já estava bem velhinha, devia ter quase oitenta, e costumava passar os finais de semana na casa dos meus avós. Seus sorrisos traquinas contrastavam com as impiedosas valas que o tempo havia cavado em seu rosto, deixando transparecer um espírito jovial e a certeza de que a velhice era apenas uma casca.

Certa vez, em uma de nossas caminhadas matinais pelos arredores da vila em que meus avós moravam, tia Vivi me contou sobre um gigante adormecido que havia no fundo do rio que passava ali perto:

– Estás a ver o rio? Há um gigante adormecido aí dentro. – Ela disse.

– Um gigante?! Jura?

– Sim, sim, querido. É um gigante horrendo. Estás a ver o fundo? Na verdade, são as costas do gigante.

– Nossa! Queria que ele se levantasse…

– Eu também, querido. Eu também.

– Posso jogar uma pedra?

– Hummm… Sim! – Ela sorriu. – Mas espere…

Ela então caminhou devagarinho até o portão da vila, enquanto eu aguardava na ponte, nervoso e feliz ao mesmo tempo. Ela fez um sinal de positivo. Eu arremessei a pedra e saí em disparada sem olhar para trás. Nisso, tia Vivi já estava dentro do terreno só esperando eu entrar para trancar o portão. Passamos a fazer isso todo domingo e eu corria, corria. E ria. Ela também. Parecia uma moleca a fazer travessuras.

Depois, minha avó fazia rabanadas de Natal mesmo que não fosse Natal e nós nos sentávamos na varanda para comer e beber laranjada. Tia Vivi era baixinha, magrinha, mas comia como gente grande. Traçava quatro ou cinco rabanadas num café da manhã. Então, ela e meu avô começavam a falar de antigamente, e eu ia para o canto com os meus soldadinhos de chumbo. Depois do almoço, o irmão do meu avô vinha buscá-la e eu voltava para a casa dos meus pais.

Mas num desses domingos de manhã, a cadeira de balanço estava vazia. Também não havia rabanadas, nem laranjada. Na sala, meus avós estavam tristes, minha mãe estava triste, até o canário do meu avô estava silencioso. A gente nunca sabe quando as manhãs da nossa infância deixam de ser mágicas, não é mesmo? Mas acontece. E acontece muito de repente.

Caminhei solitário até a ponte. Olhei as costas do gigante no fundo do rio e senti uma vontade imensa de chorar. Eu sabia que ele jamais se levantaria.

Fragmentos de um Vencido

Fragmentos de um VencidoJustiça e Poesia – Prefácio à edição portuguesa
(escrito por José Terra)

Ouvimos frequentemente a propalação do fim do socialismo, da sua falência e sua incompatibilidade com os nossos dias. Independente de questionarmos se o capitalismo deu certo,
ou para quem, é indiscutível que o socialismo estabeleceu um equilíbrio entre as forças que se antagonizaram nas suas propostas para o papel do homem no processo de produção e na economia, como também constituiu uma poderosa ferramenta na busca do homem por um mundo mais justo. Todas as lutas pela liberdade e justiça têm como aliada a utopia, se considerarmos que a abolição da escravatura no Brasil também já foi uma utopia.

A essas vozes uniu-se a voz da poesia. As aspirações humanas sempre tiveram eco no poema. Assim foi com Paul Éluard, Garcia Lorca, Castro Alves entre outros. “Come ananás, mastiga perdiz, que teu dia esta prestes, burguês” disse Maiakovsk.

Todos aqueles, porém, que puseram a sua arte à disposição do bem comum, a serviço da indignação com a covardia e industrialização da miséria dos menos favorecidos, tiveram que
lutar contra o desequilíbrio dentro do próprio poema: a função referencial e a poética. Mais do que a luta que se trava com as palavras e suas mutações, contra as perdas impostas ao desvario e ao fascínio nas suas materializações em palavras, está o esforço pelo equilíbrio entre a estética e a mensagem. A poesia que tenta ser denuncia, protesto, consciência, precisa não deixar de ser poesia.

Em Fragmentos de um Vencido, como já nos aponta o título, Thiago Luz se lança nessa empreitada. Em seu segundo livro, sua poesia se apresenta como um grito forjado na observação da condição opressiva em que vivemos. “Lotações negreiros navegam pelas avenidas, / Enquanto o cafezal da Avenida Atlântica / Está sob as vistas do barão na varanda.”, e constantemente nos leva a refletir que pouca coisa mudou e que os dias de hoje não passam de um cenário novo para um mesmo e antigo drama: “Transformaram / Sinhás em socialites, / Mucamas em domésticas, /Casas-grandes em coberturas.”.

Thiago Luz, que “bebe na fonte dos desajustados, dos que estão sem rótulos, dos que escaparam dos rebanhos”, nos chama a resistir: “Precisamos resistir… / Como uma criança diante do mundo, / Que chora uma verdade inocente / A cada maldade dos adultos.”. Ironicamente nos apresenta o desestimulante quadro em que nos encontramos: “A esperança é uma estrela pop: / Óculos escuros, seguranças, carro blindado. / Quero um beijo, um abraço, um sorriso, / Mas ela não sabe que eu existo.”.

Fica agora ao seu encargo estar mais perto da realidade que nos apresenta esta brilhante fase da sua poesia. Veja com seus próprios olhos, “Bem-vindo aos restos do paraíso!”.

*José Terra, poeta – http://www.joseterra.com.br

Fragmento I

Bem-vindos aos restos do Paraíso,
À cidade-dos-pés-juntos,
Descalços, sem adereços, cadarços,
Solados e chinelos.

Bem-vindos à favila das fogueiras burguesas;
À favela das ruelas e vielas,
Dos meninos e esgotos;
Aos cadafalsos e à verdade do roto.

Bem-vindos à carquilha do tempo…
Treze do cinco (tão cínico): um mito!
E as faces: todas tão tristes.

Bem-vindos ao navio negreiro,
Onde a dor beija os olhos do negro
Em senzalas sob marquises.

Sonhos

Lagartas sonham borboletas
Como nós, poetas, sonhamos poesia.

Vaga-lumes sonham estrelas
Como em cacos de vidro sonhamos diamantes.
E princesas sonham príncipes
Como em cada beijo um sapo sonha felicidade.

Cães sonham lobos na floresta
Como por entre os prédios sonhamos liberdade.
E pássaros sonham sem gaiolas
Como em cada escola sonhamos cem centenas de asas.

Lagartas ainda sonham borboletas
Como nós, poetas, apesar do mundo, ainda sonhamos poesia.