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Doença Terminal

Enquanto todos dormiam, a insônia me beijava ardentemente os lábios, um lobo faminto me saltava da mente, um rio turbulento me inundava os olhos, o pó branco sobre os porta-retratos me enchia as narinas e eu me injetava vaga-lumes na veia até o amanhecer. Era mais uma crise da minha doença e nem as folhas sobre a escrivaninha sairiam incólumes do pus que me escapava das feridas causadas pelas picadas dos pequenos luminosos alados.

Sobrevoando o quarto, um corvo me fitava, eu sentia, à espreita dos meus restos, um poema romântico talvez, quem sabe um verso decadentista. Estava ali, o corvo, augustiniano, saboreando minha (de)composição ante o tédio do mundo. Eu estava vendo coisas? Sim! Via coisas o tempo inteiro. Tudo era uma grande coisificação.

Ligava a tevê para fugir da doença como quem busca um deus, ouvia a pregação dos programas de auditório e as preces dos intervalos, e eu tentava rezar, eu juro que eu tentava rezar para cada grande corporação, mas Nietzsche já tinha me destroçado a fé e Baco era um grande orgasmo em meu fígado… Embriagado, incorrigível, marginal… Eu era um homem sem fé bebendo o sangue de Cristo como um vampiro.

Contei os sintomas para o meu analista: a insônia, os vaga-lumes, o corvo, Nietzsche, Baco… Ele disse que eu sofria de poesia e que os únicos remédios conhecidos eram abrir um livro de autoajuda e tomar três banhos diários no raso das redes sociais contemporâneas. Tomei a receita nas mãos e dei um breve sorriso:

– Não há cura para caras como eu, doutor!

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Os barulhos do mundo

Os barulhos do mundo embrutecem os ouvidos. Sirenes. Um cão late para o caminhão do lixo. Uma briga no quarto ao lado. Vidro. Vidro se quebrando como a coluna vertebral de um anjo. Acho que é o vinho: após o rascante de um vinho barato no paladar, sempre sobram imagens poéticas sobre coisas banais: a coluna vertebral de um anjo se quebrando. Definitivamente, não haveria poesia se todos só bebessem Coca-Cola.

Barulho… Sinto meu coração, ó, como sinto! Também há barulho aqui dentro. Há um lobo uivando querendo sair pela minha barriga. Ele diz: “fui pego na floresta e agora esperam que eu abane o rabo e não morda”. Dou mais um trago no vinho. Uma moto passa lá embaixo e o cão late novamente. Poxa, bróder, os barulhos do mundo são insuportáveis, tão insuportáveis que Hemingway estourou os próprios miolos e se deixou escapar em borboletas vermelhas.

Mas há certo silêncio, às vezes, quando a máquina de escrever começa sua marcha apocalíptica de mil corcéis alados e sem rédeas. Entende? Escrever talvez seja uma espécie de cura, ou eutanásia… Morfina! É uma xícara de café com duas colheres de morfina. Talvez seja isso.

Hoje acordei assim, sensível aos barulhos do mundo. Não é mais o cão, o vidro, as sirenes. Agora são as buzinas. As malditas buzinas como agulhas em meus tímpanos. E a tevê ligada e aquele programa de auditório idiota…

TOC, TOC, TOC

A porta. Tirei os olhos da máquina. Uma parede descascada como os lábios sem batom de uma prostituta no fim da madrugada.

– Quem é?

– Limpeza –, alguém respondeu lá fora.

Limpeza? Onde diabos eu estava? Dei uma olhada ao redor. Um quarto decadente. Um motel barato talvez. Parede verde-aspargo, cortina vermelha-bordô – talvez vermelho-falu –, mobília pobre, um ventilador de teto e outros apetrechos que me fugiram do olhar. Escrever me exilava da realidade. Eu me despia do mundo. Era eu e o texto como dois amantes em uma noite enluarada, em que vaga-lumes e estrelas se confundiam e fundiam a luz em uma explosão dentro do peito – sim, poético… Era o vinho!

TOC, TOC, TOC

– Mais uma hora, por favor.

Ninguém respondeu. No caminho dos meus olhos entre a porta e a Olivetti Lettera 82, uma barata me roubou a atenção. Ela saiu do banheiro, caminhando impunemente pelo quarto. Era feliz e imortal em sua ignorância, todos somos. Pensei em matá-la, mas logo desisti. Por fim, entrou no armário e eu voltei à máquina: pá, pápá, pá, pápápá, pá… Alguém reclamou do barulho, mas minhas churreias estavam eriçadas demais para me importar com quem quer que fosse. Continuei escrevendo. Eu também sabia fazer barulho: era a minha vingança do mundo!

O Bule

O que é belo é breve.
Um sorriso guardado
Em um retrato empoeirado na estante,
Um adeus sufocado
Pela fumaça do trem que já parte.
Um poema
Que tenta do infinito apenas um instante.

E a memória, fugaz,
Desaprende o rosto,
Os gestos,
Até o gosto
Do café da minha infância…
É um vulto atrás do fogão?
Um vulto sem nome…
Um vulto sem nome que me ama…
Um vulto sem nome que me ama e não me olha…

Mas vejo um bule…
Além do vulto, um bule!
Em metal frio refletindo o meu rosto de guri,
Ali, estatelado na cozinha do passado,
Enquanto o vulto vai,
Sempre vai o vulto…
Sem olhar pra trás.
Qual o seu nome?
Um vulto sem nome que me ama e não me olha.
Sempre vai o vulto,
E sempre me vem o maldito,
O maldito do bule que não é breve,
Porque só o que é belo é breve,
É vulto,
O resto é metal frio,
É o que me fica de herança,
É entulho nos armários da lembrança.

E o que me resta além do bule?
O que me resta?
Talvez o poeta,
Este ente,
Apaixonado e transitório,
Temporal e saudosista,
Poente,
Que escreve…
O que é belo é breve
E o poema
Do infinito é apenas um instante.

Limão com tamarindo

Eu enfio a língua na entrelinha,
essa lasciva abertura entre dois versos
fenda íntima de um poema!

E aqui, aviso logo,
não há chocolate na cobertura,
também não é doce,
nem autoajuda.
É literatura, camarada,
literatura!

Eu enfio a língua na entrelinha,
essa lasciva abertura entre dois versos,
fenda íntima ao infinito!

E aqui, aviso logo,
é azedo o gosto,
meio amargo
porque
literatura, meu amigo,
é limão com tamarindo!

O gigante do rio

A velhice é comparsa da infância. Cheguei a essa conclusão já adulto, ao me lembrar de tia Vivi na cadeira de balanço na varanda. Ela já estava bem velhinha, devia ter quase oitenta, e costumava passar os finais de semana na casa dos meus avós. Seus sorrisos traquinas contrastavam com as impiedosas valas que o tempo havia cavado em seu rosto, deixando transparecer um espírito jovial e a certeza de que a velhice era apenas uma casca.

Certa vez, em uma de nossas caminhadas matinais pelos arredores da vila em que meus avós moravam, tia Vivi me contou sobre um gigante adormecido que havia no fundo do rio que passava ali perto:

– Estás a ver o rio? Há um gigante adormecido aí dentro. – Ela disse.

– Um gigante?! Jura?

– Sim, sim, querido. É um gigante horrendo. Estás a ver o fundo? Na verdade, são as costas do gigante.

– Nossa! Queria que ele se levantasse…

– Eu também, querido. Eu também.

– Posso jogar uma pedra?

– Hummm… Sim! – Ela sorriu. – Mas espere…

Ela então caminhou devagarinho até o portão da vila, enquanto eu aguardava na ponte, nervoso e feliz ao mesmo tempo. Ela fez um sinal de positivo. Eu arremessei a pedra e saí em disparada sem olhar para trás. Nisso, tia Vivi já estava dentro do terreno só esperando eu entrar para trancar o portão. Passamos a fazer isso todo domingo e eu corria, corria. E ria. Ela também. Parecia uma moleca a fazer travessuras.

Depois, minha avó fazia rabanadas de Natal mesmo que não fosse Natal e nós nos sentávamos na varanda para comer e beber laranjada. Tia Vivi era baixinha, magrinha, mas comia como gente grande. Traçava quatro ou cinco rabanadas num café da manhã. Então, ela e meu avô começavam a falar de antigamente, e eu ia para o canto com os meus soldadinhos de chumbo. Depois do almoço, o irmão do meu avô vinha buscá-la e eu voltava para a casa dos meus pais.

Mas num desses domingos de manhã, a cadeira de balanço estava vazia. Também não havia rabanadas, nem laranjada. Na sala, meus avós estavam tristes, minha mãe estava triste, até o canário do meu avô estava silencioso. A gente nunca sabe quando as manhãs da nossa infância deixam de ser mágicas, não é mesmo? Mas acontece. E acontece muito de repente.

Caminhei solitário até a ponte. Olhei as costas do gigante no fundo do rio e senti uma vontade imensa de chorar. Eu sabia que ele jamais se levantaria.