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O gigante do rio

A velhice é comparsa da infância. Cheguei a essa conclusão já adulto, ao me lembrar de tia Vivi na cadeira de balanço na varanda. Ela já estava bem velhinha, devia ter quase oitenta, e costumava passar os finais de semana na casa dos meus avós. Seus sorrisos traquinas contrastavam com as impiedosas valas que o tempo havia cavado em seu rosto, deixando transparecer um espírito jovial e a certeza de que a velhice era apenas uma casca.

Certa vez, em uma de nossas caminhadas matinais pelos arredores da vila em que meus avós moravam, tia Vivi me contou sobre um gigante adormecido que havia no fundo do rio que passava ali perto:

– Estás a ver o rio? Há um gigante adormecido aí dentro. – Ela disse.

– Um gigante?! Jura?

– Sim, sim, querido. É um gigante horrendo. Estás a ver o fundo? Na verdade, são as costas do gigante.

– Nossa! Queria que ele se levantasse…

– Eu também, querido. Eu também.

– Posso jogar uma pedra?

– Hummm… Sim! – Ela sorriu. – Mas espere…

Ela então caminhou devagarinho até o portão da vila, enquanto eu aguardava na ponte, nervoso e feliz ao mesmo tempo. Ela fez um sinal de positivo. Eu arremessei a pedra e saí em disparada sem olhar para trás. Nisso, tia Vivi já estava dentro do terreno só esperando eu entrar para trancar o portão. Passamos a fazer isso todo domingo e eu corria, corria. E ria. Ela também. Parecia uma moleca a fazer travessuras.

Depois, minha avó fazia rabanadas de Natal mesmo que não fosse Natal e nós nos sentávamos na varanda para comer e beber laranjada. Tia Vivi era baixinha, magrinha, mas comia como gente grande. Traçava quatro ou cinco rabanadas num café da manhã. Então, ela e meu avô começavam a falar de antigamente, e eu ia para o canto com os meus soldadinhos de chumbo. Depois do almoço, o irmão do meu avô vinha buscá-la e eu voltava para a casa dos meus pais.

Mas num desses domingos de manhã, a cadeira de balanço estava vazia. Também não havia rabanadas, nem laranjada. Na sala, meus avós estavam tristes, minha mãe estava triste, até o canário do meu avô estava silencioso. A gente nunca sabe quando as manhãs da nossa infância deixam de ser mágicas, não é mesmo? Mas acontece. E acontece muito de repente.

Caminhei solitário até a ponte. Olhei as costas do gigante no fundo do rio e senti uma vontade imensa de chorar. Eu sabia que ele jamais se levantaria.

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Zé das Balas

Acordei às cinco da manhã, como de costume. O cheiro quente do café apoderou-se do casebre puído pelo tempo, tomando minhas narinas de assalto e despertando cada poro ainda sonolento em minha pele. Lúcia já estava em sua trincheira diária: o fogão, de onde também municiava o orçamento familiar com doces e salgadinhos para festas.

Enquanto a casa acordava aos poucos, com a janela e a porta encostadas como dois olhos remelentos entreabertos, meu filho ainda sonhava suave em sua cama improvisada no sofá, e Mocinha, a vira-lata de rabo sorridente, já estava de butuca armada ao lado de Lúcia, fitando o pão dormido sobre a mesa como quem espreita a caça prestes a atacar.

Ô Zé, já sabe qual o caminho de hoje, ela me inquiriu, enquanto a água fria do chuveiro batia em meu corpo com certa de crueldade. Acho que vou subir e descer a Avenida Brasil, disse. E você vem almoçar em casa, continuou o seu interrogatório matinal, enquanto ralhava com a pobre cachorra. Sim, mas vou passar primeiro na escola e pegar o Zezinho, respondi. Tem alguma história nova? Aquela da cartola é legal. Não é a cartola, é o Cartola, corrigi, e não tenho nada novo não, são as mercadorias de sempre. À tarde, vou tentar renovar a vitrine, mas ela já não estava mais ouvindo.

Bebi rapidamente o café e saí de casa antes do primeiro raio dourado pousar na superfície. Dentro da mochila, vários papéis com poemas e contos presos a saquinhos de balas. Andei uns quinhentos metros até a grande avenida, que àquela hora já transpirava monóxido de carbono. Estava à margem do rio de asfalto, esperando o lotação, e fiquei observando os navegadores em suas lanchas. Mal dava pra ver as rodas. Eles pareciam boiar no solo, todos a mil, como se o dia já estivesse no fim.

O freio do ônibus me despertou. Corri para a porta da frente da grande nau e fiz um sinal para o motorista. Ele me respondeu com um gesto negativo. Mas antes que pudesse me abater ou maldizer o coitado, outro ônibus atracou. Corri para o infeliz prateado e dessa vez tive sorte.

Senhoras e senhores, disse, como um ator que entra em cena, preciso de dois minutos de atenção. Não estou aqui pedindo esmolas, estou trabalhando. Trago poesias para alegrar o seu dia, pequenos escritos para acariciar o seu espírito. Rimas, versos e histórias para enriquecer suas horas. Por dois Reais você levará um poema ou um conto e ainda ganhará um saquinho com dez balinhas. Dois Reais para colaborar com o artista. Vamos gente! Ajudem o poeta! Ninguém me deu atenção. Uns dormiam, outros fingiam que estavam acordados, e ninguém realmente se importou comigo ali. Desci no primeiro porto, como um marinheiro decaído do convés.

Não entrava em ônibus lotados. Preferia os que possuíam espaço suficiente para me locomover com facilidade e ser visto por todos. O palco que parou em minha frente era perfeito: nenhum passageiro em pé e o motorista era conhecido. Olá, Zé das Balas, ele me saudou. Bom dia, comandante. Peço licença para entrar na sua nave. Fique à vontade, Zé! E declame um poema pra mim. Claro, sorri.

Hoje é dia treze de maio, não é mesmo? Então aqui vai um poemeto sobre a minha raça, a nossa raça: não reconheço negros, não reconheço brancos. Meu espírito sofre de daltonismo, não entende de cores, escravos ou senhores. Só enxerga seres humanos, só enxerga o que nós somos. Só o motorista aplaudiu. Bravo, ele disse.

Uma passageira comprou o poema. Um senhor de meia idade perguntou se tinha alguma história, porque ele não gostava de poesia. Claro que tem! Você conhece Cartola? Então, você sabia que ele lavava carros? Mas ele não era um lavador de carros. Ele era um poeta que lavava carros para sobreviver. Este conto fala disso: de como as pessoas nos enxergam através das nossas profissões e não o que realmente somos. O homem comprou o conto. Modéstia à parte, Cartola, o poeta era o meu melhor conto: era um pobre, um negro, mais um morador do morro. Poderia ser apenas mais um afogado no mundo, mas a poesia em sua alma o levou à superfície para sentir o mundo, ver o luzeiro sobre o morro da Mangueira, escutar a voz das rosas, provar o aroma dos bandolins, beber o gosto doce dos violões, enfeitar a vida… E assim começava o conto.

Desci do ônibus. Vendi apenas um poema e um conto. Quatro Reais. Precisava de uma dose de dramaticidade para alavancar as vendas. Fiquei na dúvida entre um câncer infantil ou coágulo no cérebro. Quando entrasse no ônibus, decidiria o melhor roteiro, afinal dramas e histórias de superação pessoal sempre vendem mais.

Outro lotação negreiro, dessa vez o três-cinco-cinco. Mas alguém na calçada me impediu de seguir viagem. Ei, nobre amigo, algum poema pra hoje? Já conhecia o pedinte. Era professor de literatura. Vivia me pedindo poemas emprestados para usar em sala de aula. Não me fiz de estrela, respondi ao moço de imediato: os prédios são capitalistas, os passeios comunistas e sob os viadutos africanos se escondem das nossas vistas. Genial, ele berrou. Tu mandas bem. Por que se tornou ambulante?

Ex-hippie nesse mundo, doutor, ou vira ambulante, ou vira morto de fome, e a gente tem que se virar, não é mesmo? Cada um se vira como pode. Uns viram doutores, outros viram bandidos, ou os dois, e existem até malucos que viram discos voadores. Ele sorriu. Não era todo mundo que entendia a sutil brincadeira entre os verbos virar e ver. Ele se despediu. Nunca comprou um poema, mas também nunca me ignorou um único verso. Estávamos quites.

Vendi mais quatro histórias do Cartola e dois poemas na meia hora seguinte, isso sem precisar apelar para o coágulo ou para o câncer. Para completar minha jornada matinal, tomei o três-cinco-cinco, depois o três-cinco-zero e por fim o nove-dois-oito. Pronto, meta cumprida: trinta Reais antes do almoço. Eu era um best-seller!

O Velho

Oitenta anos, oitenta dias, não é o tempo que passa, somos nós que passamos por ele e não saímos ilesos. Cheguei a esta conclusão numa tarde de outono, enquanto as folhas caíam pálidas nas calçadas, desgraçadas pelo tempo que finda, e meu avô, sentado numa cadeira de balanço na varanda de uma casa alugada no subúrbio, fitava o portão com seus olhos claros, levemente esverdeados como uma esperança desbotada.

Ele estava com um velho livro amarelado do John Fante pousado sobre a coxa direita, e suas unhas eram grandes e grosseiras, tão amareladas quanto o livro maltrapilho. Não aceitava que as cortassem. Tudo bem, o Velho, como carinhosamente o chamava, tinha lá suas manias. Eu respeitava.

Seu rosto era o resto do próprio passado, marcado pelo tempo, com suas valas secas, cicatrizes dos sorrisos de outrora, e por onde certamente também devem ter corrido rios de tristezas. Oitenta anos… Não há salvação: ou morremos de uma vez, ou morremos aos poucos. E ele deve ter morrido tantas vezes nessa vida, que agora restava muito pouco para ser enterrado. Será que isto é o que chamam de velhice? Viver e viver e viver até viver cada vez menos? Até deixar de existir? Não deve doer, e no fim das contas, a vida é o intervalo da morte: morrer é voltar no tempo.

Ele me sorriu. Como tá o menino? – Perguntou. Por mais que o seu cérebro já não tivesse o mesmo brilho de antes, sempre iluminado por Fante, Hemingway, Kerouac e outros, ele nunca se esquecia de duas coisas: meu filho e o Flamengo. Está bem, Velho, respondi, dando um beijo em sua testa. Você viu o jogo ontem? – O jogo tinha acontecido há três dias. Vi sim, vô, respondi. Aquele goleirinho… Ele sempre implicava com os goleiros. Mas havia uma explicação: na juventude, fora atacante, goleador, e até chegara a fazer algum sucesso pelo interior de Minas Gerais. Agora estava ali, impedido de qualquer drible pelo seu marcador mais implacável, o tempo.

Dio cane, Dio cane, Deus é um cachorro, vivia repetindo a frase de Fante. Alternava momentos de rebeldia com outros de extrema passividade diante da própria existência. Como tá o menino? – Perguntou mais uma vez. Está bem, vô, respondi docilmente. Eu não o compreendia muito bem, não mais. Horas e horas sentado na varanda, olhando pro nada, hipnotizado pelo portão. Decerto enxergava alguma coisa, talvez algo só desvendado pela idade, algo que não me seria revelado tão facilmente.

O que está olhando? – Inquiri. Dio cane, respondeu, mudando logo de assunto. Viu o jogo? Aquele goleirinho… O senhor está lendo esse livro? Já o leu quantas vezes? Não leio mais, não enxergo as letras direito, só fico imaginando o que está escrito… Dio cane. Sorri e saí da varanda, a varanda de uma casa alugada no subúrbio, paga com muito custo através de uma aposentadoria de merda de um velho de oitenta anos. Talvez meu avô tivesse razão em sua revolta: Dio cane!

Falei com minha mãe e minha avó. Elas reclamaram novamente das goteiras e do telhado vagabundo que nunca cumpria a sua tarefa, das paredes desbotadas como o batom gasto nos lábios de uma puta no fim da noite, da umidade que ardia nos ossos dos velhos, do preço do aluguel que estuprava os bolsos e a dignidade daquela gente, da rua esburacada e dos passos errantes pelas calçadas irregulares, enfim, da vida. Aquilo sugava minha energia, me deixava pra baixo. Em dez minutos voltaria pra casa, tomaria uma vodca, ouviria um rock no volume máximo e me esqueceria das reclamações, do telhado, da casa alugada… Fante tinha razão, meu avô tinha razão: Dio cane!

Voltei à varanda, a varanda de uma casa alugada, de uma vida surrada, de uma existência miserável, de um outono eterno. Meu avô continuava inerte voltado para o portão. E o menino como tá? – Perguntou novamente. Tudo bem, Velho. Vou mandar consertar o telhado e pintar a casa, disse. Não se aperreie com isso… a morte apazigua tudo, garoto… esqueça o telhado, olhe pro céu. Falou comigo com a mesma sabedoria que falava quando eu tinha doze anos. Existiam momentos de lucidez.

Vou tentar alugar uma casa melhor para vocês, eu disse. Ele me sorriu sua triste fronte, como só ele sabia fazer, devolvendo-me um pouco da minha meninice. Aquele sorriso ainda tinha o gosto de antigamente, meio sépia, meio preto e branco, uma doce foto na minha lembrança. Apliquei-lhe um beijo na testa e saí. Volto amanhã, disse já no portão. Ele acenou.

Às onze da noite daquele mesmo dia, o telefone tocou, tocou como nunca havia tocado, como jamais tocaria novamente: uma sinfonia acinzentada. Sim, o som daquele maldito era cinza! Cinza e infame! Cinza e infame e nauseabundo! Desgraçado, telefone desgraçado!

****

Parei em frente ao portão. As folhas continuavam pálidas na calçada esburacada, navegando pra lá e pra cá ao sabor do vento como uma nau sem timoneiro. Minhas olheiras denunciavam minhas noites mal dormidas, enquanto a vodca se mantinha anônima em meu hálito de Coca-Cola. Olhei a casa: na varanda jazia o vazio que me veio numa azia fugaz, enquanto a cadeira de balanço inabitada me corroeu as entranhas como um verme feroz, personagem-operário-augustoniano-angelical das ruínas. O gosto das lágrimas em meus lábios me deixou ainda mais sedento de vodca. Então, fechei os olhos e tudo me pareceu mais leve. Quando estamos com os olhos fechados tudo é azul, livre e feliz como o voo de um pássaro. A ignorância é uma bênção: confundimos o azul do mar que nos afoga com o azul do céu que nos liberta, e sorrimos de felicidade feito cães de madame abanando o rabo.

Mas abri os olhos… A cadeira continuava vazia e meus pés concretados à existência. Olhei pro céu, o dia estava lindo, mas eu não tinha asas, ou talvez não tivesse bebido o suficiente para tê-las, sei lá. Só sei que não resisti e gritei, como só os bêbados e os loucos fazem: VIVER SEM ASAS É UMA GRANDE MISÉRIA! Eu havia aprendido alguma coisa com o Velho, e ele devia estar contente comigo agora, porque a liberdade é uma coisa muito egoísta para depender do resto do mundo. Uma vizinha apareceu na janela. Mostrei o dedo médio pra ela, que ficou boquiaberta, de espanto ou de vontade, sei lá. Resolvi ignorar.

VÔ! – Berrei. O QUE FOI? – Perguntou ele lá de dentro. SONHEI QUE O SENHOR TINHA MORRIDO. Ele caminhou até o portão. Sonhei que o senhor estava condenado àquela cadeira e que tinha morrido… Estava velho, muito velho. Ele, em sua sabedoria peculiar, me respondeu: sabe qual o problema da vodca? Você pode tomar um porre de vodca com manga. No dia seguinte não vai suportar nem o cheiro da manga, mas a vodca vai continuar descendo maravilhosamente bem. E daí? – fiz cara de idiota. Daí nada… Vamos entrar, vai começar o jogo do Flamengo… E o menino como tá? – Ele sorriu, abrindo o portão. Devolvi a gentileza, afinal era um bêbado simpático, e entramos… Mais um dia na vida. Até quando? Não sei, o futuro é uma ilusão.