Arquivo da tag: Crônica

O que poderia ter sido

Nascemos na mesma maternidade e nos desencontramos por alguns dias: eu na primeira semana de março, ela na última. Moramos no mesmo bairro, perdidos por algumas ruas, e até estudamos na mesma escola até os dez anos: eu pela manhã, ela à tarde. Até que na quinta série nos encontramos de vez. Ela tinha cabelos de chocolate, disso eu me lembro, e duas covinhas num rosto arredondado que encenavam um belo e aconchegante sorriso.

Depois, editaram minha memória: cortaram algumas cenas, alguns anos, algumas classes, e só a vi de novo lá pelos quinze anos. Ela continuava com os cabelos de chocolate e com as covinhas, mas agora rimando com outros atributos. Era praticamente uma mulher. Até os dezessete ficamos juntos, prometidos um para o outro como dois amantes shakespearianos.

Mas ela resolveu cursar direito em outra cidade. Tudo saiu errado, o plano descarrilou nessas curvas que a vida nos impõe. Fiquei na engenharia, testando cálculos para reparar um coração partido. Até tentei uma nova namorada, mas eu era um chocólatra compulsivo.

Aos vinte e cinco, ela regressou casada e com um filho. Fiquei ainda mais apaixonado ao vê-la mãe. Procurei um psicólogo e ele não me curou. Então, parti para um pai de santo, mas ela não ficou comigo depois de três dias.

Não desisti: acendi velas, escrevi poemas, beijei memórias embriagadas de saudade. Hoje em dia, cada reencontro ainda é como se fosse a primeira vez. Talvez o amor precise desses ineditismos sentimentais para se manter vivo. O que poderia ter sido mantém a chama da esperança acesa, sou leal aos meus sonhos.

Anúncios