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Os barulhos do mundo

Os barulhos do mundo embrutecem os ouvidos. Sirenes. Um cão late para o caminhão do lixo. Uma briga no quarto ao lado. Vidro. Vidro se quebrando como a coluna vertebral de um anjo. Acho que é o vinho: após o rascante de um vinho barato no paladar, sempre sobram imagens poéticas sobre coisas banais: a coluna vertebral de um anjo se quebrando. Definitivamente, não haveria poesia se todos só bebessem Coca-Cola.

Barulho… Sinto meu coração, ó, como sinto! Também há barulho aqui dentro. Há um lobo uivando querendo sair pela minha barriga. Ele diz: “fui pego na floresta e agora esperam que eu abane o rabo e não morda”. Dou mais um trago no vinho. Uma moto passa lá embaixo e o cão late novamente. Poxa, bróder, os barulhos do mundo são insuportáveis, tão insuportáveis que Hemingway estourou os próprios miolos e se deixou escapar em borboletas vermelhas.

Mas há certo silêncio, às vezes, quando a máquina de escrever começa sua marcha apocalíptica de mil corcéis alados e sem rédeas. Entende? Escrever talvez seja uma espécie de cura, ou eutanásia… Morfina! É uma xícara de café com duas colheres de morfina. Talvez seja isso.

Hoje acordei assim, sensível aos barulhos do mundo. Não é mais o cão, o vidro, as sirenes. Agora são as buzinas. As malditas buzinas como agulhas em meus tímpanos. E a tevê ligada e aquele programa de auditório idiota…

TOC, TOC, TOC

A porta. Tirei os olhos da máquina. Uma parede descascada como os lábios sem batom de uma prostituta no fim da madrugada.

– Quem é?

– Limpeza –, alguém respondeu lá fora.

Limpeza? Onde diabos eu estava? Dei uma olhada ao redor. Um quarto decadente. Um motel barato talvez. Parede verde-aspargo, cortina vermelha-bordô – talvez vermelho-falu –, mobília pobre, um ventilador de teto e outros apetrechos que me fugiram do olhar. Escrever me exilava da realidade. Eu me despia do mundo. Era eu e o texto como dois amantes em uma noite enluarada, em que vaga-lumes e estrelas se confundiam e fundiam a luz em uma explosão dentro do peito – sim, poético… Era o vinho!

TOC, TOC, TOC

– Mais uma hora, por favor.

Ninguém respondeu. No caminho dos meus olhos entre a porta e a Olivetti Lettera 82, uma barata me roubou a atenção. Ela saiu do banheiro, caminhando impunemente pelo quarto. Era feliz e imortal em sua ignorância, todos somos. Pensei em matá-la, mas logo desisti. Por fim, entrou no armário e eu voltei à máquina: pá, pápá, pá, pápápá, pá… Alguém reclamou do barulho, mas minhas churreias estavam eriçadas demais para me importar com quem quer que fosse. Continuei escrevendo. Eu também sabia fazer barulho: era a minha vingança do mundo!

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O que poderia ter sido

Nascemos na mesma maternidade e nos desencontramos por alguns dias: eu na primeira semana de março, ela na última. Moramos no mesmo bairro, perdidos por algumas ruas, e até estudamos na mesma escola até os dez anos: eu pela manhã, ela à tarde. Até que na quinta série nos encontramos de vez. Ela tinha cabelos de chocolate, disso eu me lembro, e duas covinhas num rosto arredondado que encenavam um belo e aconchegante sorriso.

Depois, editaram minha memória: cortaram algumas cenas, alguns anos, algumas classes, e só a vi de novo lá pelos quinze anos. Ela continuava com os cabelos de chocolate e com as covinhas, mas agora rimando com outros atributos. Era praticamente uma mulher. Até os dezessete ficamos juntos, prometidos um para o outro como dois amantes shakespearianos.

Mas ela resolveu cursar direito em outra cidade. Tudo saiu errado, o plano descarrilou nessas curvas que a vida nos impõe. Fiquei na engenharia, testando cálculos para reparar um coração partido. Até tentei uma nova namorada, mas eu era um chocólatra compulsivo.

Aos vinte e cinco, ela regressou casada e com um filho. Fiquei ainda mais apaixonado ao vê-la mãe. Procurei um psicólogo e ele não me curou. Então, parti para um pai de santo, mas ela não ficou comigo depois de três dias.

Não desisti: acendi velas, escrevi poemas, beijei memórias embriagadas de saudade. Hoje em dia, cada reencontro ainda é como se fosse a primeira vez. Talvez o amor precise desses ineditismos sentimentais para se manter vivo. O que poderia ter sido mantém a chama da esperança acesa, sou leal aos meus sonhos.