Arquivo da tag: Poema

O Bule

O que é belo é breve.
Um sorriso guardado
Em um retrato empoeirado na estante,
Um adeus sufocado
Pela fumaça do trem que já parte.
Um poema
Que tenta do infinito apenas um instante.

E a memória, fugaz,
Desaprende o rosto,
Os gestos,
Até o gosto
Do café da minha infância…
É um vulto atrás do fogão?
Um vulto sem nome…
Um vulto sem nome que me ama…
Um vulto sem nome que me ama e não me olha…

Mas vejo um bule…
Além do vulto, um bule!
Em metal frio refletindo o meu rosto de guri,
Ali, estatelado na cozinha do passado,
Enquanto o vulto vai,
Sempre vai o vulto…
Sem olhar pra trás.
Qual o seu nome?
Um vulto sem nome que me ama e não me olha.
Sempre vai o vulto,
E sempre me vem o maldito,
O maldito do bule que não é breve,
Porque só o que é belo é breve,
É vulto,
O resto é metal frio,
É o que me fica de herança,
É entulho nos armários da lembrança.

E o que me resta além do bule?
O que me resta?
Talvez o poeta,
Este ente,
Apaixonado e transitório,
Temporal e saudosista,
Poente,
Que escreve…
O que é belo é breve
E o poema
Do infinito é apenas um instante.

Anúncios

Limão com tamarindo

Eu enfio a língua na entrelinha,
essa lasciva abertura entre dois versos
fenda íntima de um poema!

E aqui, aviso logo,
não há chocolate na cobertura,
também não é doce,
nem autoajuda.
É literatura, camarada,
literatura!

Eu enfio a língua na entrelinha,
essa lasciva abertura entre dois versos,
fenda íntima ao infinito!

E aqui, aviso logo,
é azedo o gosto,
meio amargo
porque
literatura, meu amigo,
é limão com tamarindo!

Sonhos

Lagartas sonham borboletas
Como nós, poetas, sonhamos poesia.

Vaga-lumes sonham estrelas
Como em cacos de vidro sonhamos diamantes.
E princesas sonham príncipes
Como em cada beijo um sapo sonha felicidade.

Cães sonham lobos na floresta
Como por entre os prédios sonhamos liberdade.
E pássaros sonham sem gaiolas
Como em cada escola sonhamos cem centenas de asas.

Lagartas ainda sonham borboletas
Como nós, poetas, apesar do mundo, ainda sonhamos poesia.

Mitologia Íntima

Pouso a noite, sepulcro da eternidade,
Sobre minhas retinas suadas,
E miro em Órion e em horóscopos luminares,
Tateando em vão alguma luz em meu espírito
Tocado há muito pela solidão
De um Hades em meu peito.

Tomo a taça como uma dama:
Um beijo quente em suas bordas molhadas,
E sinto seu tinto batom em meus lábios…
Eu, o filho de Baco e de leviatãs nublados,
Desertor de doze trabalhos maçantes,
Retirante de Asgard,
Cambaleante entre os frígidos dias capitalistas
E as afrodites noites a me embebedar
Da tua ausência poética…
Eu, o nobre soturno,
Admoestado por uma horda de demônios
Na odisseia dantesca em que navego,
Perdido em bússolas desnorteadas
E redemoinhos que me afogam em mim mesmo.

Por Zeus do céu,
Sou um ciclope cego no labirinto mundano,
Sem deuses ou heróis, sem divindade ou heroísmo,
Beijando Gaia em cada queda diária, sem Olimpo,
Amando Nix como um filme de Tinto Brass,
Desalmando cada gozo em frenesi frívolo,
Bailando com ninfas a preços vis nas esquinas.

Por Deus
(Talvez o maior dos mitos seja Este),
Minha crença cadavérica abraça Seth
E mergulha noite adentro nos subterrâneos
Em que Cilas de quadris vorazes
Comem minha alma sem cura
E expelem o que resta de mim
Sobre uma cama solitária.

Natureza-Morta

“A árvore quando cortada, observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira.” (Provérbio árabe)

Observo a aurora chorar
Em chuvas ácidas
Sob a névoa de mil fábricas
E a escuridão tocar
Minhas raízes mais profundas
Sob o apocalipse da queda…

Vejo impuras tonalidades
De um vil cinza
A abraçar meu verde,
Enquanto sinto a seiva
Correr em sangue, vermelha,
E toda a selva a sentir no ventre
A grande perda:
Cada cadáver de árvore
Como natureza-morta
Em pintura fúnebre.

Beijo o solo em último ato,
Derrotada como a lenha,
E indago ao mundo:
O que será do futuro?
E me calo,
Calejada pelos machados.

O Tempo… E Agora?

O tempo,
Este demônio arredio sem fim,
Beija meu rosto no escuro do futuro
E me persegue fugindo de mim.

O tempo,
Este louco poeta em camisa de força,
Declama ao mundo os seus insones segundos
Como conta-gotas da eternidade…
E no fim das contas, fim dos dias,
Cada hora é a ironia das divindades.

O tempo,
Este transeunte das lâminas afiadas,
Acaricia minha pele como um coveiro,
Transformando em negros cemitérios
Cada luz poética de um conto de fadas.

O Cavaleiro das Sombras

Nas tumbas tabernas que adentro,
A noite me toma em goles secos
De vil vinho em companhia
De errantes vultos e mentes vazias.

Embriago-me de foz em fora,
Alumiado que sou, filho da sombra,
Pela luz de isqueiros
E vozearia de corvos.

Nas tumbas tabernas que me perco
Pereço sem preço
E sem verdadeiro apreço.

Embriago-me de foz em fora
Pelas ruelas que inexistem sóbrias
E desaguam tempestuosas em cama solitária.